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Desde: 06/10/2016      Publicadas: 5      Atualização: 09/01/2017

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 Fé e Vida
  09/01/2017
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O MÁRTIR DE NOSSAS RUAS
Por Anibal Lobão: "Luiz Carlos Ruas é o nome do vendedor ambulante espancado até a morte por dois jovens em São Paulo, em plena noite de natal."
O MÁRTIR DE NOSSAS RUAS

Luiz Carlos Ruas é o nome do vendedor ambulante espancado até a morte por dois jovens em São Paulo, em plena noite de natal. Assassinado por ter enxergado no outro, até onde sei, um ser humano a ser defendido. Essa é uma carência generalizada – conseguir ver no outro um semelhante, um ser humano com a mesma dignidade que eu, seja ele (a) quem for. Na verdade, isto deve doer terrivelmente nos que se veem como referência única para os demais em todos os sentidos.

Primeiramente quero me deter na pessoa rotulada como travesti e achar seu lugar no Evangelho de Deus. Tarefa simples, e extremamente importante. E tão tristemente esquecida...

Lendo o Evangelho de Mateus, no capítulo 25,31-46, encontramos facilmente pessoas como o travesti morador de rua (e na verdade também o ambulante) entre os famintos, sedentos, peregrinos, descamisados, enfermos, encarcerados, porque Jesus, o Deus humanado, se identifica com todo e qualquer excluído e vulnerável do mundo ao ponto de se identificar com ele: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me hospedastes; Estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estive na prisão, e foste me ver” (Mt 25,35-36). Por mais que se torça o nariz é assim que Jesus é, ou acaso não se lembram, por exemplo, entre tantos outros exemplos, que ao ver a mulher que havia cometido adultério, enquanto todos só viam nela a adúltera, somete ele, Jesus, via o ser humano? E, mais ainda, um ser humano a ser acolhido, protegido, cuidado por estar naquele momento em profunda condição de exclusão e vulnerabilidade? Pois é, Jesus, ainda bem, não é como quero que Ele seja, mas como Ele simplesmente é. Que bom.

Agora quero falar de Luiz Carlos Ruas.

Onde se perde e onde se ganha a vida? Essa é a pergunta chave para se dar um sentido preciso e concreto a tudo isto, lançando mão de toda lucidez que peço a Deus que eu tenha para continuar a escrever sobre um homem como Ruas que, estou certo, deve ser honrado e sempre lembrado neste ato grandioso de entrega do dom da vida pelo outro. Este sim, é um ato de referência, ou deveria ser uma atitude paradigmática para todos as pessoas que insistem, em meio a tanta desumanidade, em lutar, bem onde estão, pela humanização do homem.

Diz um outro Luiz, o Luiz de camões, que o amor “É um não querer mais que bem querer”. Portanto o amor não é algo interplanetário como rezam as novelas das Tvs. Na verdade, é simples. É querer o bem. E fazer o bem. É por isto que Deus é amor, porque é simples – pois se fosse composto se decomporia. Mas Deus não se decompõe porque o amor não se decompõe. Porque é simples. “É um não querer mais que bem querer”.

Voltando ao Luiz em questão, ao Luiz Ruas, ele teve a coragem de ser simples, e saiu em defesa do outro excluído como ele, do deixado de lado pelo país como ele, do que é alvo de ódio como ele – porque ser pobre, bem como ser travesti, no Brasil, é ser odiado e, muitas das vezes, odiado de morte. Os dois são excluídos. E um excluído saiu em defesa do outro. Enquanto ninguém mais interveio em defesa de Luiz, mais preocupados em filmar a agressão em seus smartphones para ter algo “interessante” para postar nas redes sociais logo em seguida. Ao menos serviu para não deixar dúvidas quanto ao crime e quem foram os criminosos. Mas quem sabe uma ou mais intervenções não pudessem ter impedido a perda de uma vida? Todavia, nem todos têm a coragem de um Luiz Ruas da vida, e seu senso de humanidade...

Além de ser excluído como o travesti, Ruas era também, como o travesti, vulnerável ante ao ódio brasileiro dos mais fortes pelo mais fracos, quando na verdade deveria ser o contrário, como digo no texto anterior desta coluna: “Quando sou realmente forte?”.

Diz Jesus que “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. ” – Jo 15,13.

É... Há os que gastam suas vidas fazendo bem aos outros, há àqueles que, em dado momento da vida, são chamados a gastar suas vidas de uma só vez por uma outra pessoa, que por defendê-la perdem suas próprias vidas. Não que Luiz Ruas tenha querido perder sua vida, mas ao se colocar como uma voz em defesa de um outro excluído, foi assassinado nas garras diabólicas do ódio, que a princípio triunfa quando uma morte assim ocorre. Mas para a fé que professo, como na canção, “quando morre o meu irmão, Deus está morrendo nele”, e se Deus morre nele, de alguma forma é a vida que triunfa, não a morte.

Creio que o martírio de Luiz Ruas de alguma forma redundou em vida, que ele a ganhou para todo o sempre, e que, tomara Deus, de alguma forma possa contribuir para chamar a atenção de nossa sociedade para as pessoas invisíveis e por isto mesmo tão vulneráveis de nosso país. E também peço a Deus que se eu um dia for chamado a testemunhá-Lo na defesa de alguém excluído, descartado e invisível de nossa sociedade, eu possa ter a coragem de ser uma voz como a de Luiz Ruas, na certeza de que isto não é perda, mas ganho, pois, como Jesus mesmo diz: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo Evangelho salvá-la-á! ” – Mc 8,35.

Perdão, Luiz Carlos Ruas. Perdão amigo.

  Autor:   Anibal Lobão


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